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NADA
NA LÍNGUA É POR ACASO:
ciência e senso comum na educação
em língua materna
Marcos
Bagno (Universidade de Brasília)
(Artigo
de Marcos Bagno publicado na revista Presença
Pedagógica em setembro de 2006)
Quando o
assunto é língua, existem na sociedade
duas ordens de discurso que se contrapõem:
(1) o discurso científico, embasado nas
teorias da Lingüística moderna, que
trabalha com as noções de variação
e mudança; e (2) o discurso do senso comum,
impregnado de concepções arcaicas
sobre a linguagem e de preconceitos sociais fortemente
arraigados, que opera com a noção
de erro.
Para as
ciências da linguagem, não existe
erro na língua. Se a língua é
entendida como um sistema de sons e significados
que se organizam sintaticamente para permitir
a interação humana, toda e qualquer
manifestação lingüística
cumpre essa função plenamente. A
noção de "erro" se prende
a fenômenos sociais e culturais, que não
estão incluídos no campo de interesse
da Lingüística propriamente dita,
isto é, da ciência que estuda a língua
"em si mesma", em seus aspectos fonológicos,
morfológicos e sintáticos. Para
analisar as origens e as conseqüências
da noção de "erro" na
história das línguas será
preciso recorrer a uma outra ciência, necessariamente
interdisciplinar, a Sociolingüística,
entendida aqui em sentido muito amplo, como o
estudo das relações sociais intermediadas
pela linguagem.
A noção de "erro" em língua
nasce, no mundo ocidental, junto com as primeiras
descrições sistemáticas de
uma língua (a grega), empreendidas no mundo
de cultura helenística, particularmente
na cidade de Alexandria (Egito), que era o mais
importante centro de cultura grega no século
III a.C.
Como a língua grega tinha se tornado o
idioma oficial do grande império formado
pelas conquistas de Alexandre (356-323 a.C.),
surgiu a necessidade de normatizar essa língua,
ou seja, de criar um padrão uniforme e
homogêneo que se erguesse acima das diferenças
regionais e sociais para se transformar num instrumento
de unificação política e
cultural.
Data desse período o surgimento daquilo
que hoje se chama, nos estudos lingüísticos,
de Gramática Tradicional - um conjunto
de noções acerca da língua
e da linguagem que representou o início
dos estudos lingüísticos no Ocidente.
Sendo uma abordagem não-científica,
nos termos modernos de ciência, a Gramática
Tradicional combinava intuições
filosóficas e preconceitos sociais.
As intuições filosóficas
que sustentam a Gramática Tradicional estão
presentes até hoje na nomenclatura gramatical
e nas definições que aparecem ali.
Por exemplo, a noção de sujeito
que encontramos em importantes compêndios
normativos se expressa como "o sujeito é
o ser sobre o qual se faz uma declaração",
ou coisa equivalente. Como é fácil
perceber, não se trata de uma definição
lingüística - nada se diz aí
a respeito das funções do sujeito
na sintaxe nem das características morfológicas
do sujeito -, mas sim de uma definição
metafísica, em que o próprio uso
da palavra "ser" denuncia uma análise
de cunho filosófico. Com isso, o emprego
desta noção para um estudo propriamente
lingüístico fica comprometido. Para
comprovar isso, vamos examinar o seguinte enunciado:
(1) Nesta
sala cabem duzentas pessoas.
Se tivermos
de considerar a definição tradicional,
seremos obrigados a classificar como sujeito o
elemento "sala" do enunciado acima,
já que é sobre a sala que se está
"dizendo alguma coisa", se está
"declarando algo". Ora, todos sabemos
que no enunciado (1) o sujeito é "duzentas
pessoas", porque, numa definição
propriamente lingüística, o sujeito
é o termo sobre o qual recai a predicação
da oração e com o qual o verbo concorda.
Dificuldades semelhantes de lidar com as definições
tradicionais aparecem quase a cada passo quando
as estudamos com cuidado. Isso porque, repito,
a Gramática Tradicional, ao se formar no
século III a.C. como uma disciplina com
pretensões ao estudo da língua,
não produziu um corpo teórico propriamente
lingüístico, mas se valeu de um importante
aparato de especulações filosóficas
que vinha se gestando na cultura grega desde o
século V a.C., graças ao trabalho
dos sofistas, de Platão, de Aristóteles,
dos estóicos e de outros grandes pensadores,
para os quais o estudo da linguagem humana (logos)
era só uma etapa inicial para a compreensão
de fenômenos de outra natureza, como o funcionamento
da mente humana (psique) e sua correspondência
com o funcionamento-organização
do próprio universo (cosmo). Por tudo isso,
a Gramática Tradicional merece ser estudada,
como um importante patrimônio cultural do
Ocidente, mas não para ser aplicada cegamente
como única teoria lingüística
válida nem, muito menos, como instrumental
adequado para o ensino.
Além de ser anacrônica como teoria
lingüística, a Gramática Tradicional
também se constituiu com base em preconceitos
sociais que revelam o tipo de sociedade em que
ela surgiu - preconceitos que vêm sendo
sistematicamente denunciados e combatidos desde
o início da era moderna e mais enfaticamente
nos últimos cem anos. Como produto intelectual
de uma sociedade aristocrática, escravagista,
oligárquica, fortemente hierarquizada,
a Gramática Tradicional adotou como modelo
de língua "exemplar" o uso característico
de um grupo restrito de falantes:
" do sexo masculino;
" livres (não-escravos);
" membros da elite cultural (letrados);
" cidadãos (eleitores e elegíveis);
" membros da aristocracia política;
" detentores da riqueza econômica.
Os formuladores
da Gramática Tradicional foram os primeiros
a perceber as duas grandes características
das línguas humanas: a variação
(no tempo presente) e a mudança (com o
passar do tempo). No entanto, a percepção
que eles tiveram da variação e da
mudança lingüísticas foi essencialmente
negativa.
Por causa de seus preconceitos sociais, os primeiros
gramáticos consideravam que somente os
cidadãos do sexo masculino, membros da
elite urbana, letrada e aristocrática falavam
bem a língua. Com isso, todas as demais
variedades regionais e sociais foram consideradas
feias, corrompidas, defeituosas, pobres etc.
Ainda na questão da variação,
os primeiros gramáticos, comparando a língua
escrita dos grandes escritores do passado e a
língua falada espontânea, concluíram
que a língua falada era caótica,
sem regras, ilógica, e que somente a língua
escrita literária merecia ser estudada,
analisada e servir de base para o modelo do "bom
uso" do idioma. Essa separação
rígida entre fala e escrita é rejeitada
pelos estudos lingüísticos contemporâneos,
mas continua viva na mentalidade da grande maioria
das pessoas.
Comparando também a língua falada
de seus contemporâneos e a língua
escrita das grandes obras literárias do
passado, eles concluíram que, com o tempo,
a língua tinha se degenerado, se corrompido
e que era preciso preservá-la da ruína
e da deterioração. Tinham, portanto,
uma visão pessimista da mudança,
resultante do equívoco metodológico
- que só veio a ser detectado e abandonado
muito recentemente - de comparar duas modalidades
muito distintas de uso da língua (a escrita
literária e a fala espontânea), desconsiderando
a existência de um amplo espectro contínuo
de gêneros discursivos entre esses dois
extremos.
Com isso, os elaboradores das primeiras obras
gramaticais do mundo ocidental definiram os rumos
dos estudos lingüísticos que iam perdurar
por mais de 2.000 anos:
" desprezo pela língua falada e supervalorização
da língua escrita literária;
" estigmatização das variedades
não-urbanas, não-letradas, usadas
por falantes excluídos das camadas sociais
de prestígio (exclusão que atingia
todas as mulheres);
" criação de um modelo idealizado
de língua, distante da fala real contemporânea,
baseado em opções já obsoletas
(extraídas da literatura do passado) e
transmitido apenas a um grupo restrito de falantes,
os que tinham acesso à escolarização
formal.
Com isso,
passa a ser visto como erro todo e qualquer uso
que escape desse modelo idealizado, toda e qualquer
opção que esteja distante da linguagem
literária consagrada; toda pronúncia,
todo vocabulário e toda sintaxe que revelem
a origem social desprestigiada do falante; tudo
o que não conste dos usos das classes sociais
letradas urbanas com acesso à escolarização
formal e à cultura legitimada. Assim, fica
excluída do "bem falar" a imensa
maioria das pessoas - um tipo de exclusão
que se perpetua em boa medida até a atualidade.
Os preceitos e preconceitos da Gramática
Tradicional só começaram a ser questionados
a partir do século XIX, com o surgimento
das primeiras investigações lingüísticas
de caráter propriamente científico.
Embora contestada pela ciência moderna,
aquela visão arcaica e preconceituosa de
língua e de linguagem penetrou no senso
comum ocidental e ali permanece firme e forte
até hoje.
O processo de normatização, ou padronização,
retira a língua de sua realidade social,
complexa e dinâmica, para transformá-la
num objeto externo aos falantes, numa entidade
com "vida própria", (supostamente)
independente dos seres humanos que a falam, escrevem,
lêem e interagem por meio dela.
Isso torna possível falar de "atentado
contra o idioma", de "pecado contra
a língua", de "atropelar a gramática"
ou "tropeçar" no uso do vernáculo.
Todo esse discurso dá a entender (enganosamente)
que a língua está fora de nós,
é um objeto externo, alguma coisa que não
nos pertence e que, para piorar, é de difícil
acesso.
A criação de um padrão de
língua muito distante da realidade dos
usos atuais fez surgir, em todas as sociedades
ocidentais, uma milenar "tradição
da queixa". Em todos os países, em
todos os períodos históricos, sempre
aparecem as manifestações daqueles
que lamentam e deploram a "ruína"
da língua, a "corrupção"
do idioma etc. Acerca da suposta decadência
da língua portuguesa, sirvam de exemplos
as seguintes declarações apocalípticas,
que se desdobram ao longo de quase trezentos anos:
" "Se não existissem livros compostos
por frades, em que o tesouro está conservado,
dentro em pouco podíamos dizer: ora morreu
a língua portuguesa, e não descansa
em paz" (José Agostinho de Macedo
[1761-1831], escritor português).
" "Temos a prosa histérica, abastardada,
exangue e desfalecida de uma raça moribunda.
A nossa pobre geração de anémicos
dá à história das letras
um ciclo de tatibitates" (Ramalho Ortigão
[1836-1915], escritor e político português).
" "[...] português - um idioma
que de tão maltratado no dia-a-dia dos
brasileiros precisa ser divulgado e explicado
para os milhões que o têm como língua
materna" (Mario Sabino, Veja, 10/9/1997).
" "Não fique nenhuma dúvida,
o português do Brasil caminha para a degradação
total" (Marcos de Castro, A imprensa e o
caos na ortografia, Ed. Record, 1998, p. 10-11).
" "Que língua falamos? A resposta
veio das terras lusitanas. Falamos o caipirês.
Sem nenhum compromisso com a gramática
portuguesa. Vale tudo [...]" (Dad Squarisi,
Correio Braziliense, 22/7/1996).
" "Nunca se escreveu e falou tão
mal o idioma de Ruy Barbosa" (Arnaldo Niskier,
Folha de S. Paulo, 15/1/1998).
" "[...] o usuário brasileiro
da língua [...] comete erros, impropriedades,
idiotismos, solecismos, barbarismos e, principalmente,
barbaridades" (Luís Antônio
Giron, revista Cult, no 58, junho de 2002, p.
37).
Em contraposição
à noção de "erro",
e à "tradição da queixa"
derivada dela, a ciência lingüística
oferece os conceitos de variação
e mudança. Enquanto a Gramática
Tradicional tenta definir a "língua"
como uma entidade abstrata e homogênea,
a Lingüística concebe a língua
como uma realidade intrinsecamente heterogênea,
variável, mutante, em estreito vínculo
com a realidade social e com os usos que dela
fazem os seus falantes. Uma sociedade extremamente
dinâmica e multifacetada só pode
apresentar uma língua igualmente dinâmica
e multifacetada.
Ao contrário da Gramática Tradicional,
que afirma que existe apenas uma forma certa de
dizer as coisas, a Lingüística demonstra
que todas as formas de expressão verbal
têm organização gramatical,
seguem regras e têm uma lógica lingüística
perfeitamente demonstrável. Ou seja: nada
na língua é por acaso.
Por exemplo: para os falantes urbanos escolarizados,
pronúncias como broco, ingrês, chicrete,
pranta etc. são feias, erradas e toscas.
Essa avaliação se prende essencialmente
ao fato dessas pronúncias caracterizarem
falantes socialmente desprestigiados (analfabetos,
pobres, moradores da zona rural etc.). No entanto,
a transformação do L em R nos encontros
consonantais ocorreu amplamente na história
da língua portuguesa. Muitas palavras que
hoje têm um R apresentavam um L na origem:
LATIM PORTG.
blandu- brando
clavu- cravo
duplu- dobro
flaccu- fraco
fluxu- frouxo
obligare obrigar
placere- prazer
plicare pregar
plumbu- prumo
Assim, o suposto "erro" é na
verdade perfeitamente explicável: trata-se
do prosseguimento de uma tendência muito
antiga no português (e em outras línguas)
que os falantes rurais ou não-escolarizados
levam adiante. Esse fenômeno tem até
um nome técnico na lingüística
histórica: rotacismo.
Esse é só um mínimo exemplo
de que tudo o que é chamado de "erro"
tem uma explicação científica,
tem uma razão de ser, que pode ser de ordem
fonética, semântica, sintática,
pragmática, discursiva, cognitiva etc.
Falar em "erro" na língua, dentro
do ambiente pedagógico, é negar
o valor das teorias científicas e da busca
de explicações racionais para os
fenômenos que nos cercam.
O exemplo apresentado acima (mudança de
L para R em encontros consonantais) não
deve levar ninguém a supor que esses fenômenos
variáveis e mutantes só ocorrem
na língua dos falantes rurais, sem escolarização,
pobres etc. Eles também ocorrem na língua
dos falantes "cultos", urbanos, letrados
etc., muito embora esses mesmos falantes acreditem
ser os legítimos representantes da língua
"certa".
Alugam-se salas ou aluga-se salas? Apesar da gramática
normativa exigir o verbo no plural, a grande maioria
dos brasileiros mantém o verbo no singular.
E não é por ignorância nem
por preguiça nem por qualquer outra explicação
preconceituosa desse tipo. A análise sintática
tradicional é que é ilógica,
ao atribuir o papel de sujeito a "salas",
como se "salas" pudessem alugar alguma
coisa, um verbo que só pode ser desempenhado
por seres humanos. O falante, intuitivamente,
analisa "salas" como objeto direto e
o pronome "se" como o verdadeiro sujeito
da oração, semanticamente indeterminado
- e como não existe concordância
de verbo com objeto, fica o verbo no singular.
Essa mudança já está presente
até mesmo na língua escrita mais
monitorada:
(2) "Por falta de trigo, durante séculos
comeu-se aqui, como substitutivo do pão,
bolos e bolachas feitos à base de mandioca,
milho e outros produtos da terra". (Nossa
História, ano 2, n.15, p. 89, janeiro de
2005).
(3) "Procura-se intérpretes de klingon,
o dialeto criado para o seriado Jornada nas Estrelas.
O anúncio foi feito por um manicômio
em Oregon, EUA. Alguns de seus pacientes só
se comunicam usando a linguagem estrelar."
(IstoÉ, 21/5/2003, n. 1755, p. 20).
(4) "Mas a efeméride dos 95 anos [de
Noel Rosa] parece que, de fato, passará
em silêncio. Espera-se as maiores homenagens
para o seu centenário, em 2010 [...]"
(Revista de História da Biblioteca Nacional,
n. 6, dez. 2005, p. 11).
Diante de
tudo o que se argumentou até agora, como
devemos tratar os fenômenos de variação
e mudança na educação em
língua materna?
Existem três respostas possíveis:
(a) desconsiderar as contribuições
da ciência lingüística e levar
adiante a noção de "erro",
insistindo no ensino da gramática normativa
e da norma-padrão tradicional como única
forma "certa" de uso da língua;
(b) aceitar as contribuições da
ciência lingüística e desprezar
totalmente a antiga noção de "erro",
substituindo-a pelos conceitos de variação
e mudança;
(c) reconhecer que a escola é o lugar de
interseção inevitável entre
o saber erudito-científico e o senso comum,
e que isso deve ser empregado em favor do aluno
e da formação de sua cidadania.
A opção
(a), embora apareça quase diariamente na
mídia, defendida pelos atuais "defensores"
da língua que se apoderaram dos meios de
comunicação, tem de ser veementemente
rejeitada por causa de seu caráter obscurantista,
autoritário e, muitas vezes, irracional.
A opção (b), apesar de sua aparência
de postura inovadora e progressista, na verdade
despreza uma análise da dinâmica
social e da complexidade das relações
entre as pessoas por meio da linguagem.
Acreditamos que a opção (c) é
aquela que melhor nos orienta para um tratamento
sereno e equilibrado do intrincado relacionamento
entre linguagem-sociedade-ensino. Esta opção
nos ajuda a compreender a "dupla face"
do que se chama, no senso comum, de "erro
de português":
Qualquer análise que desconsidere um desses
pontos de vista - o científico e o do senso-comum
- será, fatalmente, incompleta e não
permitirá uma reflexão que permita
analisar a realidade lingüístico-social
nem a elaboração de políticas
que auxiliem na constituição de
um ensino verdadeiramente democrático e
formador de cidadãos.
A escola não pode desconsiderar um fato
incontornável: os comportamentos sociais
não são ditados pelo conhecimento
científico, mas por outra ordem de saberes
(representações, ideologias, preconceitos,
mitos, superstições, crenças
tradicionais, folclore etc.). Essa outra ordem
de saberes pode sofrer influência dos avanços
científicos, mas quase sempre essa influência
se faz de forma parcial, redutora e distorcida.
Querer fazer ciência a todo custo sem levar
em conta a dinâmica social, com suas demandas
e seus conflitos, é uma luta fadada ao
fracasso.
A Sociolingüística nos ensina que
onde tem variação (lingüística)
sempre tem avaliação (social). Nossa
sociedade é profundamente hierarquizada
e, conseqüentemente, todos os valores culturais
e simbólicos que nela circulam também
estão dispostos em categorias hierárquicas
que vão do "bom" ao "ruim",
do "certo" ao "errado", do
"feio" ao "bonito" etc. E
entre esses valores culturais e simbólicos
está a língua, certamente o mais
importante deles. Por mais que os lingüistas
rejeitem a norma-padrão tradicional, por
não corresponder às realidades de
uso da língua, eles não podem desprezar
o fato de que, como bem simbólico, existe
uma demanda social por essa "língua
certa", identificada como um instrumento
que permite acesso ao círculo dos poderosos,
dos que gozam de prestígio na sociedade.
[box: Haugen]
Uma das tarefas do ensino de língua na
escola seria, portanto, discutir criticamente
os valores sociais atribuídos a cada variante
lingüística, chamando a atenção
para a carga de discriminação que
pesa sobre determinados usos da língua,
de modo a conscientizar o aluno de que sua produção
lingüística, oral ou escrita, estará
sempre sujeita a uma avaliação social,
positiva ou negativa.
Podemos, por exemplo, ao encontrar formas não-padrão
na produção oral e escrita de nossos
alunos, oferecer a eles a opção
de "traduzir" seus enunciados para a
forma que goza de prestígio, para que eles
se conscientizem da existência dessas regras.
A consciência gera responsabilidade. E é
ao usuário da língua, ao falante/escrevente
bom conhecedor das opções oferecidas
pelo idioma, que caberá fazer a escolha
dele, eleger as opções dele, mesmo
que elas sejam menos aceitáveis por parte
de membros de outras camadas sociais diferentes
da dele. O que não podemos é negar
a ele o conhecimento de todas as opções
possíveis.
Para realizar essa tarefa, o docente precisa se
apoderar do instrumental que a ciência lingüística,
e mais especificamente a Sociolingüística,
oferece para a análise criteriosa dos fenômenos
de variação e mudança lingüística.
O profissional da educação tem que
saber reconhecer os fenômenos lingüísticos
que ocorrem em sala de aula, reconhecer o perfil
sociolingüístico de seus alunos para,
junto com eles, empreender uma educação
em língua materna que leve em conta o grande
saber lingüístico prévio dos
aprendizes e que possibilite a ampliação
incessante do seu repertório verbal e de
sua competência comunicativa, na construção
de relações sociais permeadas pela
linguagem cada vez mais democráticas e
não-discriminadoras.