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| Artigo
de Marcos Bagno publicado na Revista Caros
Amigos |
A
CATÁSTROFE DOS CURSOS DE LETRAS
Marcos
Bagno - Novembro de 2008
A formação
dos professores de português, hoje, no Brasil,
é uma catástrofe. Nós, os
responsáveis pelos cursos de Letras, não
enxergamos a bomba-relógio que temos nas
mãos. As estatísticas não
mentem: a retumbante maioria dos estudantes de
Letras vêm de camadas sociais pobres ou
mesmo miseráveis, filhos de pais analfabetos
ou que têm escolarização inferior
a quatro anos. Isso significa muita coisa. Significa
que esses estudantes têm um histórico
de letramento muito reduzido: no ambiente familiar,
não convivem com a cultura letrada, não
têm acesso a livros, revistas, enciclopédias
etc. Significa que não são falantes
das normas urbanas de prestígio (as mesmas
que supostamente terão de ensinar a seus
futuros alunos) e têm domínio escasso
da leitura e da escrita. Só na faculdade
é que a maioria deles vai ler, pela primeira
vez na vida, um romance inteiro ou um texto teórico.
Vêm, quase todos, do ensino público,
essa tragédia ecológica brasileira
muito pior que as queimadas na Amazônia.
Nós, porém, fingimos que eles são
ótimos leitores e redatores, e despejamos
sobre eles, logo no primeiro semestre, teorias
sofisticadas, que exigem alto poder de abstração
e familiaridade com a reflexão filosófica,
e textos de literatura clássica, escritos
numa língua que para eles é quase
estrangeira. E assim vamos nos iludindo e iludindo
os estudantes.
O resultado é que
os estudantes de Letras saem diplomados sem saber
lingüística, sem saber teoria e crítica
literária e sem saber escrever um texto
acadêmico com pé e cabeça.
Todos os dias, recebo mensagens de formandos que
me pedem orientação para seus trabalhos
finais. Alguns até me enviam seus projetos.
São textos repletos de erros primários
de ortografia, pontuação, sintaxe,
vocabulário, com frases truncadas e sem
sentido. Assim eles chegam ao final do curso,
e suas monografias, mal escritas, sem nenhum rigor
teórico ou metodológico, são
aprovadas alegre e irresponsavelmente por seus
supostos orientadores.
O problema, é claro,
não está no fato (que merece comemoração)
de acolhermos na universidade alunos vindos das
camadas mais desfavorecidas da população.
O problema é não oferecermos a eles
condições de, primeiro, se familiarizar
com o mundo acadêmico, que lhes é
totalmente estranho, por meio de cursos intensivos
(e exclusivos) de leitura e produção
de textos, de muita leitura e muita produção
de textos, para só depois desses (no mínimo)
dois anos de preparação eles poderem
começar a adentrar o terreno das teorias,
das reflexões filosóficas, da alta
literatura. Se não fizermos isso urgentemente
(anteontem!), as salas de aula do ensino básico
estarão ocupadas por professores que, mal
sabendo ler e escrever adequadamente, não
poderão desempenhar sua principal tarefa:
ensinar a ler e a escrever adequadamente! Não
sei, aliás, por que escrevi "estarão
ocupadas": elas já estão ocupadas,
neste momento, por essas pessoas, de quem se cobra
tanto e a quem não se oferece uma formação
docente que também seja, minimamente, decente.