Deu no Jornal
CONSONÂNCIA
ENTRE TEORIA E PRÁTICA
Norma
Seltzer Goldstein (USP)
BAGNO,
Marcos. Dramática da Língua Portuguesa.
Tradição gramatical, mídia
e exclusão social. S Paulo, Ed Loyola 2000
BAGNO,
Marcos. Português ou Brasileiro? um convite
à pesquisa. São Paulo, Parábola
Editorial, 2001
Fala-se
muito na necessidade de estabecer elos entre a
universidade e o ensino fundamental e médio.
Na prática, nem sempre isso ocorre, permanecendo
a academia distanciada dos níveis de ensino
de que ela, de certa forma, se retroalimenta.
Uma boa escola para jovens certamente teria reflexos
nas atividades acadêmicas, tanto de ensino
quanto de pesquisa. Contudo, salvo (louváveis)
projetos isolados, pouco se vem fazendo nessa
direção.
Geralmente, os autores
de dissertações e teses de mestrado
buscam divulgar seus ensaios, enquanto pesquisa
acadêmica, sem ampliar a discussão
no sentido de propor uma questão crucial:
de que modo este trabalho poderia contribuir para
o ensino fundamental e médio? De maneira
ainda esparsa, estão surgindo alguns pesquisadores
conscientes disso, cuja inquietação
encontra eco em editoras pequenas, voltadas para
nichos específicos de mercado, como o de
alguns docentes do ensino fundamental e médio,
interessados em atualizar-se e aprimorar a própria
formação. Nos últimos dois
anos, vêm surgindo algumas tiragens de obras
destinadas a professores de LP 1 - Português
língua materna- resultantes de pesquisas
universitárias. É o caso de Marcos
Bagno, doutor em Filologia e Língua Porguesa
pela Universidade de São Paulo, cuja extensa
pesquisa lingüística torna-se fonte
de reflexão e sugestões metodológicas
práticas para docentes de LP1.
Dado o parentesco entre as duas obras, comento
conjuntamente Dramática da língua
portuguesa. Tradição gramatical,
mídia e exclusão social - resultante
da tese de doutorado- e Português ou brasileiro?
um convite à pesquisa- conjunto de roteiros
de pesquisa a serem desenvolvidos com e por alunos,
em contexto escolar- indicados, daqui em diante,
por DLP e PB, respectivamente.
No livro resultante da
tese, o jogo de palavras do título fornece
a primeira pista: uma simples troca de fonemas
marca a relação entre o problema
lingüístico e o social: dramática
/ gramática. A mesma ponte reaparece na
segunda parte do título, ao correlacionar
apego à tradição gramatical
e exclusão social. Delineia-se, assim,
o eixo condutor da obra que se caracteriza por
uma pesquisa lingüística séria,
uma reflexão política lúcida
e uma linguagem clara e fluente.
Em "Primeiras palavras", o autor apresenta
DLP como "resultado de uma longa reflexão
sobre as concepções de língua
e de linguagem na sociedade brasileira",
lamentando "a existência e o vigor
de um preconceito lingüísitco profundamente
arraigado na cultura deste país".
O ensaio percorre trilhas sociolingüísticas,
movido pela utopia de possibilitar, a cada cidadão
brasileiro, a aceitação de seu próprio
falar. O leitor, seduzido pelo convite, também
passa a sonhar com o dia em que estaremos todos
repetindo, com orgulho, o verso da canção
"minha pátria é minha língua".
Os cinco capítulos do livro tratam de gramática
tradicional, da relação entre preconceito
e ideologia, da questão da norma culta
padrão, provocando o leitor a pensar sobre
o papel do lingüista diante dessas questões.
Uma parte da argumentação se apóia
na análise de exemplos extraídos
de um site da internet.
Bagno transcreve
passagens desse site que exemplificariam a distinção
entre língua coloquial e língua
formal. Com fundamentação e engenho,
Bagno aponta o equívoco embutido na comparação.
Ela pretenderia evidenciar a especificidade de
cada variedade lingüística, em função
da situação específica de
comunicação, mas acaba por apresentar
uma classificação preconceituosa,
já que explicita o valor "positivo"
de uma variedade - lingua "escrita, formal,
padrão" (sic) - em contraposição
ao valor "negativo" da outra - "língua
falada, coloquial" (sic). Se, por um lado,
o autor do site ilustra o emprego da linguagem
"informal", aparentando valorizar esse
registro, por outro deixa transparecer seu valor
"menor", em relação ao
padrão culto de linguagem. Bagno aponta
outra falha séria do site, decorrente da
inconsistência terminológica, ao
misturar, indistintamente, as duas modalidades
da língua - a falada e a escrita - e as
diversas variedades lingüísticas.
Nem sempre a língua falada é "informal",
ela também pode ser "culta",
mas o site funde as duas categorias, chegando
a polarizar, de um lado, o "informal / o
falado" e, de outro, o "formal / escrito".
Ou seja: onde ficam o formal/falado? E o informal/escrito?
Trata-se de problema sério, em página
disponível a todos os usuários da
internet, induzindo os que o consultam a erros
conceituais e terminológicos, além
de realimentar o preconceito lingüístico.
Bagno propõe
uma saída para o ensino: "Sou da opinião
de que a disciplina Língua Portuguesa deve
conter uma boa qualidade de atividades de pesquisa,
que posibilitem ao aluno a produção
de seu próprio conhecimento lingüísitco,
como arma eficaz contra a reprodução
irrefletida e acrítica da doutrina gramatical
normativa. Para cada assunto a ser abordado (colocação
de pronomes, estratégias de relativização,
refência verbal, concordância nominal
etc) seria o caso de levantar um corpus o mais
diversificado possível para que nele se
buscasse apreender as regras das diferentes variedades
de língua, a distribuição
dos usos de acordo com a modalidade de língua,
com o registro, com o gênero de texto etc."
( o. c. p 159).
O autor exemplifica esse tipo de proposta, analisando,
inicialmente, três textos retirados de jornal,
nos quais discute a questão do gênero
jornalístico; ou, melhor dizendo, dos "gêneros
jornalísticos", no plural.
A partir das propostas de Castilho sobre as concepções
de linguagem e a de Bortoni-Ricardo para a análise
do português do Brasil, a argumentação
prossegue, centrada na investigação
de cinco fenômenos sintáticos, observados
numa série de corpora: 1) estratégias
de relativização; 2) retomada anafórica
de objeto direto de 3ª pessoa; 3) pronomes
sujeito-objeto; 4) pseudopassivas "sintéticas"
ou "pronominais"; 5) regências
dos verbos em IR e CHEGAR com idéia de
movimento. O resultado é um mapeamento
de usos, em diferentes variedades, na modalidade
falada e na escrita, evidenciando as diversas
"línguas" que todos nós
utilizamos.
O ponto de chegada, prenunciado desde o início,
é a constatação da "urgente
necessidade de romper com a falsa sinonímia
ensino de língua = ensino de gramática,
sobretudo quando nessa relação,
como já foi demonstrado, gramática
nada tem a ver com intuição lingüística
do indivíduo enquanto falante nativo de
uma língua, nem com a fascinante investigação
filosófica das relações do
ser humano com sua linguagem e dos seres humanos
entre si por meio da linguagem" ( grifos
do autor- o.c. p 306).
Da "gramática" à "dramática",
Bagno descortina os três atos do drama da
linguagem: "1º ato: ter o que dizer;
2º ato: querer dizer; 3º ato: poder
dizer". Este último, o mais complexo,
encenaria toda uma série de exclusões
sociais.
Citações de Foucault embasam e afunilam
a discussão em direção a
uma proposta concreta: "Nossa prática
deve subordinar a língua à linguagem,
a gramática à dramática,
fazer da gramática o instrumento para tocar
a música da linguagem - justamente o oposto
do que se tem feito tradicionalmente até
hoje (o.c. p. 311).
É provável que o leitor se pergunte:
e agora? Como prosseguir meu trabalho como professor
de LP1? Embora a obra deixe claro que a resposta
a essa questão só vá ser
respondida, gradativamente, por cada docente,
ao lado de seus discípulos em sala de aula,
o segundo livro retoma a discussão, voltando-se
agora, diretamente, para a atividade pedagógica.
Marcos Bagno, em Português ou Brasileiro?
relaciona a teoria à aplicação
prática, propondo roteiros de pesquisa
destinados à utilização em
sala de aula. De modo coerente, o autor aplica
sua própria sugestão, "fazendo
da gramática um instrumento para tocar
a música da linguagem". A epígrafe
da obra é uma canção, Plataforma,
de João Bosco e Aldir Blanc; os nomes dos
capítulos retomam igualmente alusões
musicais: 1. Não põe corda no meu
bloco; 2. Primeiro o fubá, depois o dendê;
3. Cores que eu não sei o nome; 4. Eu consolo
ele, ele me consola; 5. Deixa eu dizer que te
amo; 6. Em que se vai trocando as pernas; 7. Quando
chegar em Americana, eu não sei o que vai
ser; 8; Que sacuda e arrebente o cordão
de isolamento".
O capítulo inicial trata de uma série
de tópicos prévios: gramática
tradicional; ciência lingüística;
língua falada; conceito de "erro";
norma e variação lingüística,
para, a partir delas, propor as questões
que preocupam todos os professores de língua
materna: "Afinal, o que ensinar na escola?
Gramática: sim ou não?"
Passo a palavra ao autor: "Toda ciência
digna deste nome é um saber em construção,
uma obra nunca terminada, um trabalho constante
e ininterrupto. Ao contrário da Gramática
Tradicional, que acabou se constituindo numa coleção
de dogmas, isto é, uma coleção
de conceitos que são considerados verdades
absolutas e indiscutíveis, a Lingüística,
como toda ciência, não pára
de questionar suas próprias idéias,
não pára de reformular suas teorias.
/.../
Assim, diante desse impasse -não ensinar
a Gramática Tradicional ( porque não
científica) nem ensinar as teorias mais
recentes ( porque sempre inconclusas e provisórias)-
o que nos resta a fazer em sala de aula? O que
nos resta a fazer não é nenhum resto,
mas simplesmente tudo e só o que temos
a fazer: desenvolver a prática da leitura
e da escrita, da releitura e da reescrita /.../"
( grifos do A, o.c. p 66)
Mas e a gramática tradicional? Ela pode
ser ensinada? A resposta é "sim",
caso o professor considere isso importante. E
vem complementada por uma série de sugestões
para instrumentalizar como isso deveria ser feito,
levando em conta a variação lingüística
e considerando a linguagem como um atividade social,
condições para que o aluno assuma
uma postura crítica face ao objeto de estudo.
A idéia é que alunos e mestres pesquisem
juntos a ocorrência de determinados fenômenos
num corpus em que figurem textos de língua
oral e de língua escrita. A tarefa não
é fácil. Além de uma mudança
de mentalidade por parte do mestre, ela exige,
ainda, tempo e dedicação: "Não
basta pedir aos alunos que façam a pesquisa:
é fundamental que você também
faça tudo o que eles vão fazer.
Assim, você ficará sabendo o que
eles podem encontrar, identificará os pontos
em que pode haver mais dificuldade, reconhecerá
a viabilidade ou inviabilidade do projeto. Desse
modo, será mais fácil para você.
Afinal, para guiar, para orientar alguém,
é preciso que este guia conheça
bem o caminho." ( grifos do autor o c.p.
75)
Em seguida, Bagno propõe alguns roteiros
de pesquisa, enfatizando que "a riqueza da
pesquisa está na própria pesquisa,
no processo de investigação, na
exploração do material, na aplicação
das teorias, no levantamento das hipóteses.
E complementa, declarando-se aberto à continuação
do diálogo: "Se, ao longo do trabalho,
você sentir falta de alguma coisa que eu
tenha deixado escapar, por favor, não deixe
de me comunicar! ( idem ibidem).
Desde o início, esta resenha enfatizou
a importância da aplicação
das pesquisas lingüísticas à
prática da sala de aula. Existe, no entanto,
o risco de que esse processo resulte em propostas
"novidadeiras" e "salvadoras",
que deixam completamente de lado nossa tradição
gramatical. Não é, em absoluto,
o caso das obras em análise. Além
da ponte entre teoria e prática, Marcos
Bagno faz, também a ponte entre tradição
e inovação, apoiado em ampla fundamentação
bibliográfica. Esse não é
seu único mérito. O mais importante
talvez seja a postura de pesquisador em eterno
processo de aprendizagem, disposto a interagir
com seus leitores, para rever e reformular permanentente
suas posições.
Seria quase desnecessário acrescentar que
as propostas do autor, voltadas para a formação
de jovens com espírito crítico,
estão perfeitamente afinadas com os Parâmetros
Curriculares Nacionais e, para nos limitarmos
a um Estado, também com as Propostas Curriculares
de Língua Portuguesa da Secretaria de Educação
do Estado de Sâo Paulo.