Livros
Produção bibliográfica do
autor (não inclui
títulos esgotados)
II. Livros Técnicos e Didáticos
A
norma oculta - língua & poder
na sociedade brasileira
São Paulo, Parábola, 2003.
Não
existe preconceito lingüístico!
Esta é a frase que muitos gostariam
de ler, especialmente se estampada num
texto do autor do muito difundido Preconceito
lingüístico. E é o
que leremos aqui, com todas as letras.
Como pode Marcos Bagno, em seu novo livro,
vir se desdizer? Vamos com calma, vamos
por partes:
A
norma oculta aprofunda o estudo das relações
entre língua e poder no Brasil e
avança para a afirmação
de que o preconceito lingüístico
na sociedade brasileira é, na verdade,
um profundo e entranhado preconceito social.
Bagno lança um olhar inquiridor sobre
a história da constituição
das línguas para desvendar nossa
realidade sociolingüística.
Seu recurso à história se
funde com a pesquisa sociolingüística
e a crítica corajosa do rótulo
de "erro", sempre aplicado com
rigor, mas segundo critérios bem
relativos, por aqueles que se consideram
sacerdotes da classe letrada, incumbida
de defender a pureza estática da
língua. Exemplo candente disso são
as reações de expoentes da
imprensa nacional ao modo de se expressar
do primeiro operário nordestino eleito
para a presidência da República.
É ilustrativo enxergar, seguindo
a análise do autor, o peso do preconceito
social travestido de aniquilamento da língua
do outro, quando não se enxerga este
outro como interlocutor válido.
A norma oculta desvenda o jogo ideológico
por trás da defesa de um conjunto
padronizado de regras lingüísticas,
retira o disfarce lingüístico
de uma discriminação que é,
de fato, social, ao demonstrar que a própria
negação da existência
do preconceito lingüístico é
a prova mais do que eloqüente de que
as coisas não podem seguir como estão.
Para entender nossa língua temos
de assumir a concretude histórica,
cultural, a condição de atividade
social da língua, sempre sujeita
às circunstâncias, às
instabilidades, às flutuações
de sentido, à própria opacidade
da experiência humana.
Trata-se aqui, mais uma vez, de expor e
de reafirmar as bases do imperativo de incorporar
à educação em língua
materna uma concepção dinâmica
que nos leve a abandonar a inútil
busca de estabilidade e de homogeneidade,
típicas do modo tradicional e redutor
de encarar as relações dos
seres humanos entre si e consigo mesmos
por meio da linguagem.
A história das línguas e das
sociedades nos revela que para haver alguma
mudança nos conceitos de língua
"certa" e língua "errada"
é preciso que também haja,
ao mesmo tempo, uma grande e radical transformação
das relações sociais.
No campo lingüístico, transformação
significativa será o estabelecimento
de uma possível gramática
do português brasileiro, a ser preparada
pelos pesquisadores que há bem mais
de trinta anos estão engajados na
investigação criteriosa da
nossa realidade lingüística.