NÃO
É ERRADO FALAR ASSIM! Em
defesa do português brasileiro São
Paulo, Parábola
, 2009
Já
passou da hora de professores, gramáticos,
dicionaristas, autores de livros didáticos,
elaboradores e corretores de provas de
concursos, revisores e outros profissionais
envolvidos com a linguagem deixarem de
considerar como "erradas" tantas
opções lingüísticas
que há mais de um século
estão definitivamente incorporadas
à gramática do português
brasileiro, ocorrendo inclusive na língua
escrita mais monitorada, para não
mencionar a literatura consagrada.
Este livro faz uma defesa explícita
do vernáculo brasileiro contemporâneo,
com base nos resultados obtidos em investigações
realizadas sobre ele por centenas de pesquisadores
nos últimos quarenta anos. Não
tem mais cabimento corrigir o que não
está errado, punir o que não
é crime, castigar quem é
inocente. O português brasileiro
é a nossa língua materna.
Temos de ver e ouvir essa língua
com olhos e ouvidos de brasileiros.
Não se trata, porém, de
querer abolir as formas tradicionais,
clássicas, para impor as formas
inovadoras, diferentes das padronizadas.
Quem quiser continuar usando elas, que
fique à vontade. Queremos apenas
que as formas alternativas de falar e
de escrever sejam também consideradas
boas, bonitas e legítimas, e que
sua análise e descrição
sejam incorporadas serenamente nos materiais
didáticos.
Também não se trata de propor
um "vale-tudo" lingüístico,
como algumas pessoas desavisadas (ou mal-intencionadas)
vêm apregoando ultimamente nos meios
de comunicação. Se é
verdade que o convívio social necessita
de normas, também é verdade
que essas normas (numa sociedade democrática)
têm que ser renovadas e aperfeiçoadas
periodicamente, para que elas estejam
a serviço dos cidadãos (e
não contra eles), para que todo
cidadão se reconheça nelas
e queira segui-las.
Até agora, porém, temos
sido oprimidos por prescrições
obsoletas, incoerentes e autoritárias
que muitas vezes contrariam o saber lingüístico
intuitivo que todo e qualquer falante
tem do bom funcionamento de seu próprio
idioma. E, pior que tudo, essas prescrições
são usadas como instrumentos autoritários
de repressão e de exclusão
social. Vamos fazer valer a nossa língua
materna! Vamos desarmar o nosso convívio
lingüístico!