Livros

Produção bibliográfica do autor
(não inclui títulos esgotados)

II. Livros Técnicos e Didáticos

NÃO É ERRADO FALAR ASSIM! Em defesa do português brasileiro
São Paulo, Parábola , 2009

Prefácio de Sírio Possenti

SÃO FATOS, SOMENTE FATOS

No prefácio de seu As palavras e as coisas, Michel Foucault diz que o livro "nasceu de um texto de Jorge Luis Borges. Do riso que sacode, à sua leitura, todas as familiaridades do pensamento". O texto de Borges fala de uma enciclopédia chinesa, "onde vem escrito que os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias..."
Que o leitor se divirta com o texto de Borges. Espero que não reaja diante dessa enciclopédia como muitos cidadãos e intelectuais diante de algumas formas linguísticas que não estão no seu catálogo, e que por isso consideram inexistentes. É claro que o leitor deve considerar que Borges não é zoólogo, mas ficcionista. Quem conhece alguma coisa de sua obra sabe que aquela enciclopédia não existe, sendo uma das características de sua literatura esse tipo de invenção de textos que ele em seguida comenta.
Lembrei esse prefácio de Foucault porque foi ele que me veio à mente (ou será foi ele que me fez lembrar o outro?) quando li uma passagem, que também é de fazer rir, no terceiro volume da História Ilustrada da Ciência (uma publicação da Universidade de Cambridge a que tive acesso pelo antigo Círculo do Livro).
O livro contém informações históricas que hoje pareceriam ficção científica, ou ironia, ou paródia. No tópico dedicado à Botânica, o texto destaca a importância de Dürer (um pintor), cujos quadros não só chamam a atenção pela qualidade artística, mas também "pelo estudo apurado da própria grama". (Como seria bom se os cientistas também escrevessem de forma a merecer algum destaque por essa virtude! E se os escritores mostrassem que pesquisam a língua em que escrevem, para não se espantarem ou espernearem quando ouvem ou leem estruturas não canônicas!)
O texto continua no mesmo tom, celebrando a grande importância das escolas de pintura para o desenvolvimento da ciência. Todos sabemos como Leonardo da Vinci, por exemplo, é celebrado por seus estudos minuciosos de anatomia. Lembrem os mais jovens que não havia então máquinas fotográticas digitais, e que, portanto, desenhar fielmente animais e plantas era crucial para a ciência. "Tudo era parte dessa nova revolução científica ... que estava começando a colocar a prêmio a observação e o registro preciso dos fatos" (ênfase minha) (p. 18). Atenção: o livro fala do Renascimento!
Mas não é exatamente essa a passagem que poderia ser objeto de paródia, mas outra, relativa à obra de um dos grandes botânicos alemães, Brunfels. O que hoje seria risível é a informação de que ele "prestou uma reverência exagerada às autoridades do passado, chegando mesmo a se desculpar pelo fato de o livro conter algumas plantas desconhecidas dos autores antigos".
O leitor sabe que semelhante atitude seria inimaginável num botânico ou num biólogo dos dias atuais. Não só ela seria impossível, como o pesquisador destacaria a novidade de sua descoberta. E nenhuma autoridade se sentiria desprestigiada pelo fato de haver novidades em seu campo de trabalho, mesmo se descobertas por novatos. É que, no campo científico, a atitude intelectual mais elementar consiste em considerar que a verdade nunca é definitiva, que repetir o texto de uma autoridade simplesmente pelo fato de ela ser uma autoridade é um defeito, não uma virtude.
Mas suponhamos que um botânico ou biólogo tivesse a mentalidade de um pseudogramático. Se fosse a campo e descobrisse um animal até então não registrado ou uma planta ausente do catálogo mais atualizado que pudesse consultar na biblioteca, o que ele faria? Em vez de pedir auxílio a uma agência de fomento para mostrar sua descoberta num congresso, ele mataria o animal ou destruiria a planta. Ele os consideraria errados, já que não constam nos catálogos em vigor! Não é assim que ainda se faz nos estudos de gramática, e mesmo do léxico, na maior parte dos casos de que se tem notícia: repete-se religiosamente algum manual? As poucas exceções são alguns centros de pesquisa em algumas universidades.
Por que o elemento fundamental da mentalidade científica moderna (a que surgiu no século XVI) ainda está ausente nos estudos de língua? Por que ainda não conseguimos dizer simplesmente que a forma X é um fato da língua (mesmo que digamos em seguida que ele não nos agrada, assim como podemos não gostar de uma comida, de uma roupa, de uma música)? Por que continuamos dizendo simplesmente que se trata de um erro, ou, pior, que é um horror? Será possível imaginar um botânico avaliando como um horror uma trepadeira, uma fruta, uma folha? E um astrônomo garantindo que as fases da lua são um erro ou que não existem outras galáxias? Pois esse tipo de comportamento intelectual se encontra diariamente quando o assunto é a língua! E não apenas nos jornais ou na televisão - com seus emissários de uma pretensa verdade revelada no único livro que conhecem e leem mal -, mas também na pena de intelectuais respeitáveis, na de escritores premiados e que são até um pouco rebeldes em suas obras!
Não vou apresentar o livro de Marcos Bagno que o leitor tem em mãos. Não é necessário. Por duas razões, pelo menos. A primeira é que ele escreveu uma apresentação (a primeira parte do livro) relativamente longa e bastante precisa do projeto do livro, na qual deixa sua tese principal muito clara: não está propondo nenhuma rebeldia, nenhuma novidade. Pede apenas que as pessoas sensatas parem de considerar erros de português formas lexicais ou gramaticais que são diariamente condenadas sem razão. E ele o faz em nome do simples fato de que elas ocorrem sistematicamente. E não é que ocorrem na boca de iletrados, mas sim na escrita de pessoas letradas, o que ele comprova sistematicamente com as abonações encontradas na mídia.
A segunda razão pela qual não é necessário apresentar o livro de Bagno é que ele não precisa, não deveria precisar, de uma justificativa, como seria o caso, eventualmente, se se tratasse de uma teoria nova ou de materiais até nunca antes analisados. Mas Bagno chove no molhado, no sentido de que defende o óbvio. Ou o que deveria ser o óbvio, se nossos guias para estudos da língua já tivessem chegado, em termos de mentalidade, pelo menos ao Renascimento.
Espero sinceramente que esse livro ajude de alguma forma os setores relevantes da sociedade a repensar critérios, para o bem de muitos brasileiros que são diariamente insultados, não por sua ignorância, mas pela daqueles que os insultam. E para o bem de muitos alunos, que não conseguem compreender por que o que leem e ouvem vale para os que escreveram e falaram, mas não vale para eles.
Antes que alguém diga de novo que os linguistas - representados aqui pelo autor desse livro - acham que se pode falar de qualquer jeito (o que é impossível, porque ninguém fala de qualquer jeito), destaque-se que Bagno nem defende, da sanha abestalhada de certos analistas, formas populares socialmente marcadas. Ele apenas pede que os defensores das gramáticas as leiam direito pelo menos uma vez na vida. E que, se aceitam seus princípios gerais, especialmente no que se refere a uma definição mais ou menos consensual de padrão ou norma culta, que sejam um pouco coerentes.
O leitor verá que Bagno não põe em questão as gramáticas (embora isso fosse mais do que legítimo). Ele as defende mesmo quando não merecem. O que seu livro ataca é o pequeno manual simplificado que, este sim, é um verdadeiro acinte.
Num certo sentido, bem preciso, pode-se dizer que se trata de um livro de divulgação. Não que nos informe sobre uma teoria (como faria um livro sobre psicanálise, sobre gramática gerativa, sobre hermenêutica, sobre memória...). É um livro de divulgação no sentido de que restaura fatos, como faria um livro de história que contasse que as coisas não foram como sempre se disse, mas que, com base em documentos recentemente descobertos, podemos saber agora que os fatos foram outros, diferentes. O livro de Marcos Bagno é uma obra que mostra. É um livro para os olhos, ou para os ouvidos: exibe fatos da língua padrão brasileira atual, da norma culta atualmente falada e escrita no Brasil. Falada e escrita variavelmente, é claro, como sempre foi, aliás.
Não poderia ser de outra maneira, porque nenhum estudioso minimamente preparado proporá desabonar formas antigas. Quem as preferir, por gosto ou por exigência dos campos ou dos gêneros, que as utilize. Mas que deixe os outros em paz.
É só o que o livro pede. E é mais do que justo que o faça, porque o faz baseado em fatos indiscutíveis.

Campinas, junho de 2009
Sírio Possenti


 

 

I. Livros de literatura

O papel roxo da maçã - Editora Positivo, 2009.

Caraminholas de Barrigapé - Editora Positivo, 2008.

Murucututu - a coruja grande da noite - São Paulo, Ática, 2005.

Uma vida de conto da fadas - a história de Hans Christian Andersen - São Paulo, Ática, 2005.

A Lenda do Muri-keko - São Paulo, SM, 2005.

O espelho dos nomes - São Paulo, Ática, 2002.

O processo de independência do Brasil - São Paulo, Ática, 2000

A vingança da cobra - São Paulo, Ática, 1995.

Bafafá em Mangabela! - Belo Horizonte, Formato, 1995.

Frevo, amor & graviola - São Paulo, Atual, 1991.

II. Obras técnicas e didáticas

GRAMÁTICA: PASSADO, PRESENTE E FUTURO - Marcos Bagno - Curitiba, Aymará, 2010.

NÃO É ERRADO FALAR ASSIM! Em defesa do português brasileiro - Marcos Bagno - São Paulo, Parábola, 2009.

NADA NA LÍNGUA É POR ACASO: por uma pedagogia da variação lingüística - Marcos Bagno - São Paulo, Parábola, 2007.

A norma oculta - língua & poder na sociedade brasileira - São Paulo, Parábola, 2003.

Lingüística da norma (org.) - São Paulo, Loyola, 2002.

Língua materna: letramento, variação & ensino - São Paulo, Parábola, 2002.

Norma lingüística (org.) - São Paulo, Edições Loyola, 2001.

Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa - São Paulo, Parábola, 2001.

Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical, mídia & exclusão social - São Paulo, Loyola, 2000.

O processo de independência do Brasil - São Paulo, Ática, 2000.

Preconceito lingüístico: o que é, como se faz - São Paulo, Loyola, 1999.

Machado de Assis para principiantes - São Paulo, Ática, 1998.

Pesquisa na escola: o que é, como se faz - São Paulo, Loyola, 1998.

A língua de Eulália (novela sociolingüística) - São Paulo, Contexto, 1997.

 

 

 

 
Marcos Bagno - Escritor, tradutor, lingüista e professor da UnB - mbagno@terra.com.br