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de Marcos Bagno publicado na Revista Caros
Amigos |
NÃO
É REFORMA, MINHA GENTE, É SÓ
UM ACORDO!
Marcos
Bagno - Novembro de 2008
Me espanta sempre a falta de criatividade (se
é esse o nome do problema) dos jornalistas
quando o assunto é língua. Existem
temas interessantíssimos e questões
cruciais para a compreensão das complexas
relações entre língua e sociedade,
mas esses profissionais da mídia só
querem tratar do óbvio. E, para piorar,
não lêem o que seus colegas publicam,
procuram os especialistas (ou os falsos especialistas,
na maioria dos casos) e perguntam as mesmas coisas,
para obter as mesmas respostas já impressas
e reimpressas. Como sou um dos rarissíssimos
lingüistas brasileiros que descem da torre
de marfim acadêmica e dão a cara
a tapa na divulgação científica
e na disposição ao debate em terreno
leigo (só consigo pensar num único
outro colega que também faz isso, Sírio
Possenti, da Unicamp, em suas colunas semanais
na internet), recebo todos os dias pelo menos
um pedido de entrevista. E todos só querem
saber de três entidades fabulosas: a "reforma"
ortográfica (que não existe); o
"gerundismo" (que também não
existe) e a "língua" da internet
(que existe tanto quanto a mula-sem-cabeça).
As palavras empregadas já indicam, de saída,
a absoluta falta de informação de
quem faz as perguntas. Com isso, num exercício
de paciência que, espero, vai acumular pontos
no meu cartão-fidelidade para participar
da comunhão dos santos, tento, primeiro,
desmontar as perguntas para depois responder.
Haja!
A quantidade de declarações infelizes,
quando não francamente burras, que circulam
hoje em dia sobre a questão ortográfica
mereceria uma boa investigação sociológica.
Por que esses discursos são tão
refratários a qualquer racionalidade mínima?
Por que é que pessoas, aparentemente inteligentes,
têm coragem de dizer que a partir de agora
não vamos mais dizer "lingüiça"
mas "linghiça", porque o trema
foi abolido? Que a supressão do acento
em "ideia" vai dificultar saber se a
vogal tônica é aberta ou fechada?
Ora, não existe acento que diferencie "velha"
de "telha", "a corte" e "o
corte", "a cerca" e "ele cerca",
e no entanto ninguém confunde o grau de
abertura das vogais tônicas dessas palavras.
Vamos estudar um pouquinho, gente?
Antes de tudo, é preciso bradar aos quatro
ventos que não se trata de uma "reforma",
mas simplesmente de um acordo que elimina as pequeninas
diferenças que existem entre as duas convenções
ortográficas que vigoram no mundo de língua
portuguesa: a brasileira e a lusitana, que impera
em Portugal e nos demais países ditos lusófonos.
Uma reforma, para merecer esse nome, implicaria
em alterações radicais na aparência
escrita da língua, como aconteceu, por
exemplo, em 1945, quando "physica" virou
"física" e "rhythmo"
virou "ritmo". Nada disso está
sendo proposto agora. São apenas alguns
poucos acentos gráficos que deixarão
de ser usados, junto com o trema (que, pelo amor
de Deus, não é um acento!), além
de uma regulação do uso do hífen.
Com isso, somente 0,5% das palavras escritas em
português brasileiro sofrem alguma alteração.
É muito, muito pouco para alguém
falar de "reforma". Mas muita gente
fala! Perdoa, Pai, eles não sabem o que
fazem...
Para não repetir o que já foi dito
por outras pessoas mais competentes do que eu,
remeto os leitores a dois textos primorosos, facilmente
acessíveis. O primeiro é de José
Luiz Fiorin e está disponível no
meu site (www.marcosbagno.com.br) com o título
"E agora, Portugal?". O outro é
de Carlos Alberto Faraco e está no site
do Museu da Língua Portuguesa (www.estacaodaluz.org.br)
com o título "Uma mudança necessária".
Nesses dois textos, o que se destaca é
a análise política que eles fazem
do Acordo. É essa que deveria interessar
aos jornalistas, e não as novas regras
de acentuação, que são pouquíssimas
e podem ser aprendidas de cor em meia hora. Como
escreve C. A. Faraco, "Portugal transformou
a duplicidade de ortografias num instrumento político
para embaraçar a presença brasileira
seja nas relações com os demais
países lusófonos, seja na promoção
internacional da língua". E é
isso mesmo. Muita gente naquele país totalmente
desimportante na geopolítica global teme
que o Brasil assuma, de fato e de direito, as
rédeas na condução dos destinos
da língua portuguesa no mundo, como se
isso não fosse inevitável. Com o
apego à ortografia que vigora lá
e nos demais países, Portugal impede a
livre circulação de material impresso
no Brasil, sobretudo livros didáticos e
dicionários; não reconhece os diplomas
de proficiência em língua portuguesa
que nós expedimos; exige que os organismos
internacionais publiquem todos os seus documentos
segundo as normas da grafia instituídas
por lá etc. Trata-se de uma política
lingüística tacanha, que tenta encobrir
o sol brasileiro com a peneira minúscula
da ortografia lusa. No Brasil vivem 90% dos falantes
de português de todo o mundo. O português
brasileiro (e não simplesmente "o
português") é a terceira língua
mais falada no Ocidente (depois do espanhol e
do inglês). Se todos os habitantes de Portugal
e dos outros países "lusófonos"
(que de lusófonos não têm
nada: neles só uma minoria fala português)
deixassem de usar a língua, ainda assim
essa posição do português
brasileiro não se alteraria no panorama
lingüístico global.
Defender a validade e a necessidade do Acordo
ortográfico é defender a importância
do Brasil e do português brasileiro no cenário
mundial. É conferir auto-estima a um povo
que, há meio milênio, vem sendo acusado
de "arruinar" o "idioma de Camões".
Arruinamos mesmo, pronto, e daí? Mas é
sobre essas ruínas que estamos erguendo
uma língua surpreendente, que deixa os
lingüistas fascinados com as inovações
sintáticas que estamos introduzindo, uma
língua que é a cara do nosso povo,
como têm quer ser (e de fato são)
todas as línguas do mundo.